Os Gritos do parto


Gritar vem do latim “critare” (vulg.) ou “quirito”, que significa chamar, invocar.

Na natureza, todos têm um grito de força, que está relacionada com a forma de expressão dos animais.

Quando a voz é inibida muitas vezes gritamos com os olhos e gestos.

No caso de lutadores por exemplo, o grito, também chamado de “KIAI” é uma exteriorização da energia corporal, que nasce do baixo ventre e sobe com a força até a boca.

Servem para aumentar, acelerar e expor a força do lutador, ou seja, o grito não é só para expressar medo ou dor, ele é mais relacionado à força e poder.

No parto isso tem muito a ver. A semelhança entre as cordas vocais e a anatomia da vagina é incrível. Estudos mostram que há uma ligação direta entre a boca e o canal de parto e quanto mais a mulher abre a boca durante o trabalho de parto mais facilmente esse canal se abre, possibilitando assim que o parto ocorra com mais rapidez.

Falar, cantar, gemer durante o trabalho de parto é uma maneira de expressar o seu sentimento, sua sensação. Colocar o som pra fora estimula a garganta e ajuda a atingir abertura e relaxamento.

A ligação entre garganta e canal vaginal é tanto energética (alinhamento dos chakras) quanto física. Eles se contagiam mutuamente: se a garganta contrai, o mesmo acontece na região vaginal, e se a garganta relaxa, o colo do útero e períneo também relaxam.

Durante o trabalho de parto, cantar relaxa, o corpo se deixa levar pelas contrações, trabalhando a seu favor, em lugar de entrar em luta com elas, desaparecem a tensão e o medo e surge a possibilidade das mais profundas e belas transformações e materializações da Vida.

As mulheres podem cantar sem cansarem-se durante horas no parto e esse mecanismo regenerador de energias, leva-as a conviver harmoniosamente com as contrações, favorecendo a dinâmica uterina, e criando uma relação positiva com o momento do parto.

Por isso, à medida que as contrações vão surgindo, não lute nem as contrarie. Aceite-as como parte fundamental do processo.

Ao emitir sons, você liberta e exala emoções, produz endorfinas e alivia a dor.

Relaxar é o segredo e vocalizar é importante para dar vazão à dor e ganhar forças. Se a mulher está à vontade, ela vai vocalizar.

O útero e o colo do útero têm um comportamento semelhante ao comportamento dos esfíncteres como a bexiga, o reto e o ânus – músculos que retêm algo até que um estímulo cause a sua abertura e a libertação do seu conteúdo.

E estes órgãos bem como o útero e a vagina, funcionam melhor em ambientes íntimos, calmos e com privacidade.

  • Podem fechar involuntariamente se a pessoa se sente ameaçada, embaraçada ou perturbada;

  • O relaxamento dos maxilares está ligado ao relaxamento dos músculos da vagina e ânus – o riso é uma das melhores maneiras de relaxar estes músculos; portanto, boca aberta = vagina aberta;

O ambiente em que a mulher está, a forma como é tratada afetam o trabalho de parto.

Os sons do trabalho de parto são semelhantes aos sons do sexo. São grunhidos com força e vigor, meio animalescos. Não vêm da garganta, mas de um lugar muito mais profundo, lá de dentro do ser, das entranhas.

No trabalho de parto também é assim, o gemido vem consolidando toda a força que a mulher tem e demonstra quando está parindo, é nato.

Cantando, vocalizando, a mulher expressa sua dor através da voz. Porém essa dor nem sempre é física.

Seja a primeira experiência ou a décima vez, o parto é sempre único e promove singulares e sucessivas transições de mulheres para mães.

Quando a mulher tem um contato íntimo com o seu corpo, ela relata o trabalho de parto de forma diferente. O nascimento de um bebê e de uma nova mãe é uma experiência que sem conexão com o seu próprio corpo é interpretada e entendida somente como dor física, mas não é.

Para uma mulher respeitada em todos os momentos do parto, em seus tempos e fisiologia, a dor física representa somente uma mínima nuance de todo o caminho de transformação, podendo ainda transformar-se em um prazer transcendental.

Prazer? Mas isso é possível?

Algumas mulheres relatam ter sentido orgasmo enquanto seu bebê nascia, também chamado de parto orgasmico.

Isso é possível porque há uma intensa estimulação no canal vaginal quando o bebê nasce. Não é tão frequente, mulheres terem orgasmo durante o trabalho de parto, o mais comum são relatos de sensações de prazer.

Todo o sistema reprodutor feminino é estimulado, o que pode levar ao orgasmo ou sensações de prazer.

Como fazer para me soltar?

Deixe sair o som quando você expira. Isso facilita a interação entre boca, garganta e vagina.

Ouça seu corpo, emita o som que sentir vontade, não reprima seu desejo. Tenha liberdade e sinta-se livre para expressar a intensidade do que você está sentindo.

Outra grande aliada do trabalho de parto é a respiração. Ela acalma e ajuda na concentração. Tem tudo a ver com o ritmo do parto, com o estado de espirito dele.

Emita sons graves com a mandíbula relaxada e a boca aberta. Pode ser o som que você quiser: sons guturais, cantos, mantras ou movimentos de língua.

Vocalizações graves ajudam a garganta e vagina vibrarem em conjunto, como um espelho.

Treine antes. Não há contraindicações para gemidos e grunhidos durante a gestação.

Na Índia, as mulheres grávidas emitem os seus mantras em reuniões regulares de meditação com um canto em coral, rítmico e repetitivo. São vocalizações empoderadoras para a mulher que começa a praticá-lo logo nos primeiros meses de gravidez.

Facilitar a interação entre a garganta e órgãos genitais femininos o quanto antes, ainda que durante a gravidez, faz com que os efeitos curativos do canto ajudem a mitigar ou eliminar os bloqueios psicoemocionais que podem ter um impacto negativo durante a dilatação, fase crucial do parto na qual a mulher precisa permitir que o corpo faça o seu trabalho, assim como no momento expulsivo quando entregamos o mundo aos nossos filhos e os nossos filhos ao mundo material à nossa volta, sem a proteção de nosso ventre.

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