O SUPER SINCERO E A GESTANTE



Eu adoro a verdade. E odeio a mentira. Não necessariamente nessa ordem.

Daí venerar a sinceridade... tem um hiato gigantesco entre elas.


Primeiro porque grosseria disfarçada de sinceridade magoa e magoa sem necessidade.

Concordo que sinceridade é uma baita característica. Mas é importante bom senso e habilidade para lidar com ela, hein?






Franqueza desmedida é falta de autocontrole, não é?

Claro que a gente tem que ser sincero, mas não a ponto de ferir o outro.

Sinceridade é sinônimo de assertividade. É algo positivo, que oferece ganhos tanto para quem diz como para quem escuta. E precisa agregar, né?

Algumas pessoas projetam as próprias fraquezas nos outros e se dizem sinceronas.


A gravidez é um processo tão central na vida de uma mulher que todo o mundo se volta pra ela, o mundo dela e o mundo dos outros; as pessoas olham, observam, acompanham uma gestante quando a avistam. Há um certo mistério. E uma vontade de meter o bedelho, uma vontade de participar, digamos assim, do ‘milagre da vida’.

Mas não precisamos ser mal-educados e desrespeitosos, concorda?


Algumas pessoas tem dificuldade de saber até onde podem se meter, até onde podem intervir, podem falar e acabam prejudicando os sentimentos e as relações com as pessoas.

Vários comentários, considerados sinceros, são desnecessários.

Afinal, qual a utilidade de falar para uma grávida que o filho dela pode nascer “com problema”?



Na gravidez o turbilhão de hormônios deixa a mulher a flor da pele sim e ao mesmo tempo que ela está muito feliz, ela também está insegura e com medo do que pode vir a acontecer, que na verdade não está sob o controle dela.

Tudo se potencializa, a mulher grávida chora até em propaganda de margarina, já ouviu essa?

Uma irritaçãozinha qualquer parece o fim do mundo.


Quando a fonte de irritação vem de uma pessoa muito querida ou de alguém de um relacionamento profissional, o negócio complica.

A mulher se sente “na obrigação” de engolir o desaforo e seguir em frente.

Como assim? Quem disse que ela consegue?


Então, você que é super sincero, que não tem papas na língua, aqui vão algumas dicas para aprender a ser mais educado na vida (principalmente com as mulheres grávidas que é o meu foco de trabalho):

-A melhor dica é analisar quando ser super sincero. E já vou dizendo pra NÃO ser com uma grávida

-Quanto ser super sincero? Também depende com quem você está lidando. Com uma gestante? O mínimo. Ela pediu a sua opinião? Detenha-se a responder o básico

-A sinceridade pode por tudo a perder. Cuidado com o que o outro pode interpretar. Não se preocupe em explicar demais, se tem que explicar para se fazer entender, não diga.

-Pense na melhor forma possível de manter a sua sinceridade, mas de maneira adequada, como por exemplo, quando pedem a sua opinião, que tal?

-Cuidado com o tom com que você fala. Se não dá pra evitar o comentário, cuide em como vai falar, você não precisa magoar duplamente com as palavras e com o tom.

-Controle a língua, seja capaz de elogiar e se não consegue guardar a crítica ou o comentário, tome uma água.

-Eu prefiro me omitir. Boca fechada não entra mosca e olha que eu falo pra caramba!

-Expresse sua opinião, mas tenha uma boa dose de cautela e sabedoria para não usar mal as palavras e machucar ninguém.

-Uma pessoa educada é uma pessoa que pouco fala. Porque as palavras ferem.

Se você perceber que não é legal falar em determinado momento, o silêncio é a melhor solução.

Tem um ditado que diz “a palavra é de prata, o silêncio é de ouro”.

Pode pensar a vontade.

Liberdade de pensamento!

Só não precisa dizer tudo o que pensou.

Respeito!


E ainda mais:

-Elogie sempre que possível

-Evite perguntas indiscretas

-Tome cuidado na hora de dar conselhos, a vida é dela

-Exalte as qualidades da pessoa e não os seus defeitos

-Evite fazer parte de círculos de fofocas

-Quando for preciso reclamar, escolha bem as palavras e não seja grosseiro;


Você é muito próximo de uma gestante, é como se a gravidez fosse sua também e se sente no “direito” de dizer certas coisas?

Eu entendo perfeitamente e explico às minhas pacientes; os comentários e opiniões indesejadas são muito da ansiedade e insegurança do outro em relação àquela gravidez.

Geralmente as pessoas estão preocupadas com você, com o bebê, querem te alertar de algo que elas sabem ou ouviram falar, ou sabem como evitar e aí te falam coisas ruins, que assustam, que magoam, sem a real intenção de te fazer mal. Elas só queriam te proteger.

Eu sei, não é o melhor jeito de proteger, mas é o jeito que elas sabem, que elas conseguem, que elas sabem. Cabe a gente tentar ter um pouquinho de empatia também e entender o medo e a ansiedade do outro.


Então, não se sinta com as palavras do outro e saiba como agir quando se sentir magoada:

-Não escute, o outro está falando mais dele do que de você, do medo dele, das angústias dele, não são suas.

-Não sinta por ele, os sentimentos são deles, não os pegue para você, deixe-os lá.

-Interprete, mas pergunte se ele quis dizer aquilo mesmo e não fique com um “mal entendido”, principalmente se você não gostou do que foi entendido.

-Filtre o que você escuta e dê uma resposta se preciso for. Não é necessário ser grosseira de volta, só responda que não gostou do comentário, por exemplo.

-Não revide, apenas demonstre que não gostou.

-Seja educada. Quem é grosseiro por “profissão”, não está acostumado a ser tratado com educação, quebre o padrão.


O segredo está em saber se policiar para não falar tudo que vem à cabeça.